Carta de desabafo ao excelentíssimo governador de Santa Catarina

Postado por: Tatiana Dornelles

Carta ao governador de Santa Catarina
Excelentíssimo senhor governador Carlos da Silva Moisés
A/C Moisés

Sou Tatiana Dornelles, jornalista e professora da rede pública estadual. Por muitas vezes, em meu ofício como jornalista, estive em sua sala no Corpo de Bombeiros de Tubarão para entrevistá-lo sobre desastres naturais, evacuação e até mesmo sobre a corporação. Acho que deve lembrar, né?

Sempre o admirei pelo trabalho à frente dos bombeiros e, principalmente, na Defesa Civil. Suas ideias e projetos para enfrentar crises – como essa que estamos vivendo – sempre foram dignas de boas matérias. Falamos muito sobre a falta de plano de evacuação em caso de enchente em Tubarão e o fato de, na época, a cidade não ter um plano pronto para caso de emergência. Acredito, inclusive, que muita coisa mudou aqui na Cidade azul depois que você esteve no comando do batalhão e na Defesa Civil.

Confesso que não votei em você – e o chamo assim, de você, por termos nos conhecido e tomado alguns cafés durante as entrevistas -, mas no início da pandemia eu aplaudi suas ações. Você estava firme, forte, convicto e, principalmente, pensando e agindo como bombeiro e defesa civil, funções as quais desempenhou com honraria. No entanto, no meio do caminho, entre o afastamento do processo de impeachment e o retorno, tudo mudou. Sua posição mudou, ficou mais “maleável”, flexível, às entidades de classe, ao empresariado e aos deputados. Voltou como político e começou a enfrentar a pandemia como tal.
Pois bem! Vamos ao que interessa!

A educação é essencial sim, tanto que durante a pandemia os professores não pararam e tiveram que se reinventar diante de algo que ninguém estava preparado. Os docentes tiveram que mudar a forma de ensinar da noite para o dia, virar youtuber, responder grupos e grupos de WhatsApp, mexer em programas até então desconhecidos por muitos. Docentes nunca foram preparados anteriormente para atividades remotas e, até então, nem mesmo o Estado havia capacitado os profissionais para isso. E também não estava preparado.

E firmes e fortes, seguimos lá, incansáveis e diariamente, para atender da melhor forma possível os alunos e pais, entre reuniões, planejamentos, planos de aula e exigências da Secretaria de Educação que mudaram tantas e tantas vezes no Professor Online. Enquanto muitos setores pararam durante os muitos e muitos decretos assinados, estávamos sempre lá, remotamente, fazendo o melhor pela educação.

Agora, no retorno às aulas presenciais, fomos forçados a retornarmos para o “chão da escola”. Estaríamos felizes não fosse o risco que estamos correndo. Estamos com medo, principalmente diante do que estamos vivendo atualmente – o colapso que Santa Catarina enfrenta e que o senhor sabe muito melhor do que todos nós. Vemos todos os dias pais de alunos e colegas de trabalho sendo afastados por contaminação da covid-19. Alguns morrendo. Conhecidos lutando pela vida enquanto esperam por uma vaga na UTI. E temos que estar lá, nas salas de aula todos os dias, “firmes e fortes”, fingindo que está tudo bem. Mas não está. Estamos arriscando nossas vidas e a de familiares. Com muito medo.

Não somos o setor da Saúde, que está de frente no combate a esse vírus mortal. Não somos médicos, tampouco enfermeiros. Não sabemos operar aparelhos e nem mesmo conhecemos sobre primeiros socorros. Nossa ferramenta é apenas o conhecimento. Somos simples seres humanos que estamos “dando a cara a bater” em salas de aula com estudantes que não sabemos por onde andaram, e se os familiares estão ou não se cuidando. E não venha com conversa fiada que “há distanciamento”, que “as crianças respeitam”… Porque é só elas saírem do portão da escola que já estão se aglomerando no caminho para casa. Mesmo com toda a recomendação.

Ouvir a mesma desculpa de que “todos voltaram a trabalhar, por que professor não pode voltar?” já é frase estapafúrdia. Ficar numa sala de aula, 8h por dia, falando direto, trocando máscaras e tendo contato com diversos alunos, “aglomerados numa sala” – porque, convenhamos, mesmo mantendo distância estamos sim aglomerados em sala, é diferente de atender um cliente em supermercado, na loja, ou de ficar atrás de uma mesa na empresa ou no gabinete. Muitos docentes frequentam mais de uma escola para poder sobreviver no fim do mês. Quantos alunos passam por nós, toda semana, mesmo dividindo as salas em grupos (A e B)? Quantos alunos passam por um professor de 40h de química, física, história, arte, inglês? Calcule nossos riscos diários, por favor. Nosso risco é maior.

E, se somos prioridade no que diz respeito ao serviço, à educação, deveríamos ser considerados prioridade na vacinação. Aliás, apenas para ratificar, não queremos ficar em casa. Queremos trabalhar com dignidade, vacinados. Se estamos compromissados na linha de frente com a educação, merecemos também compromisso com a nossa saúde por parte das esferas públicas. E não ficar lá por último na fila, à espera de imunização, enquanto estamos na linha de frente.

Só vemos e ouvimos a preocupação quanto ao retorno dos alunos em veículos de comunicação. Mas quantos questionaram sobre a segurança dos docentes? Quantos falaram da necessidade de vacinação para professores agora que a educação é serviço essencial, mesmo diante do pior quadro de pandemia?

Agora, Moisés, como sempre fez comigo quando íamos fazer entrevistas – te convido a entrar na escola, tomar um café e conhecer a realidade que estamos enfrentando todos os dias. Venha passar um dia inteiro – melhor, uma semana inteira (não vale só uma horinha) para entender de verdade como é lecionar para a educação infantil, fundamental e médio em condições pandêmicas. As portas estão abertas, afinal, a casa é sua e o café está sempre prontinho. E, confesso, irá ouvir os maiores receios e piores medos dos professores diante dessa pandemia…

Mas, por favor, venha de máscara por conta do coronavírus e para que ninguém o reconheça. Venha como professor, disfarçado. Porque você bem sabe, né? Quando chega visita importante, a gente sempre diz para as crianças se comportarem e arrumamos a casa para receber bem! Então, nesse caso, é melhor chegar de surpresa!

 

Fotos: Destino Mundo Afora

Aviao

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