Sobrevivi ao Burnout, mas perdi a minha identidade
Postado por: Tatiana Dornelles
Há exatamente um ano me afastei de tudo o que sempre amei: o jornalismo, a correria da redação, a escrita dos meus livros, os lançamentos, as atividades sociais, a atividade física, as festas, a sala de aula. Enfim, de tudo o que fazia parte daquela Tatiana de antigamente.
Hoje, já não sei mais quem sou. Não sei mais do que realmente gosto, nem o que pretendo fazer daqui para frente. Às vezes, tenho vontade de voltar e fazer tudo outra vez, como se pudesse retomar a vida exatamente do ponto onde a deixei. Em outras, surge a vontade de desaparecer com um passe de mágica.
A verdade é que aquela Tatiana de antes já não existe mais. Ela precisou se apagar para sobreviver.
Nos últimos meses, crises de pânico passaram a me assombrar. Vieram noites mal dormidas, ou simplesmente não dormidas. A ansiedade emergiu com uma força que eu nunca havia conhecido, e o medo da morte tomou conta de mim de uma forma avassaladora. De repente, quase nada parece fazer sentido.
Não quero escrever. Não quero viajar. Não quero sair, ensinar ou conversar. Afogo-me em xícaras de café e doses de medicamentos. Sinto-me sozinha mesmo cercada por tantas pessoas.
Pensei que as crises passariam rapidamente, mas foi um grande engano. No último dia de abril, às 22h30, uma crise de pânico me levou de ambulância ao hospital. No último domingo, uma crise de ansiedade me encontrou num minuto qualquer, deitada na cama, assistindo a uma série. Houve também o medo extremo da morte e os arrepios enquanto dirigia pela estrada.
Só quem vive isso sabe o que realmente significa.
Há dias em que quero fazer tudo. Em outros, não quero fazer absolutamente nada. Existem dias de alegria intensa e dias de tristeza profunda. Dias de fome voraz e dias em que o alimento perde completamente o sentido. Dias em que consigo dormir um pouco mais cedo e noites inteiras em claro. A maioria delas, na verdade.
Há dias em que desejo voltar a ser quem fui. E há dias em que percebo que já não sei mais o que quero ser.
Talvez a maior dor não seja apenas perder aquilo que amava, mas aprender a conviver com a ausência da pessoa que eu era. E, quem sabe, aceitar que, depois de certas tempestades, não voltarei a ser a mesma. Preciso, lentamente, descobrir quem está nascendo entre os escombros do que ficou para trás.
Hoje percebo que não sinto apenas saudade da minha vida antiga. Parece o luto de uma identidade inteira… por quem eu fui durante tantos anos.
É como se a antiga redação da minha existência tivesse fechado as portas e, no silêncio que ficou, eu ainda estivesse procurando a próxima manchete da minha vida.
Talvez o mais difícil não seja aceitar tudo o que perdi, mas entender que a Tatiana de antes já não existe da mesma forma. E aprender a conhecer essa nova versão de mim exige tempo, muito mais tempo do que as pessoas costumam imaginar. E do que imaginei!
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- Tatiana Dornelles é jornalista, professora de Arte, Língua Portuguesa e Italiano, escritora e fotógrafa. Mestre em ArtesVisuais, especialista em História da Arte e em Jornalismo para Editores. Criou e mantém o blog Destino Mundo Afora desde 2011, bem como o canal no Youtube.